O início da recuperação das vendas será mais lenta para alguns segmentos do que para outros. Ajustes na gestão das empresas devem prosseguir, na avaliação de especialistas como Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (na foto)

Fevereiro começa com uma enxurrada de más notícias para o varejo. Veja:

*A queda de vendas no setor atingiu 6,2%, a maior taxa desde o início da série de levantamentos PMC (Pesquisa Mensal do Comécio), conduzida pelo IBGE.

*Nos dois últimos anos, mais de 200 mil lojas fecharam as portas e quase 360 mil comerciários foram demitidos, de acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

*No mesmo período, 4,4 milhões de famílias que ascenderam à classe C regressaram às classes D e E, sem sinal de que esse quadro se inverta tão cedo, de acordo com estudo da consultoria Tendências.

*Projeções da consultoria mostram que A renda das famílias vai continuar em queda neste ano e a perspectiva é de débil crescimento ao menos até 2026.

*O número de desempregados, que atualmente ultrapassa 12 milhões, pode chegar a 14 milhões ainda neste semestre. E quem está empregado deve continuar economizando, com receio de fazer parte deste contingente.

*A confiança do consumidor na economia continua no campo do pessimismo. O Índice Nacional de Confiança (INC, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) atingiu 77 pontos em janeiro, dois pontos a menos do que o registrado em dezembro passado.

Entre zero e 100, o indicador está no campo do pessimismo e entre 100 e 200, do otimismo.

Há, porém, em meio a todos essas negras estatísticas, um dado fora da curva.

Apesar de o INC ter caído em janeiro em relação a dezembro, cresceu, neste período, de 15% para 17% o percentual de brasileiros dispostos a adquirir bens de preços intermediários, como eletrodomésticos, nos próximos seis meses.

Essa pequena melhora na intenção de compra do consumidor levou a ACSP a recalcular o indíce de expectativa de vendas para o período de 12 meses terminado em junho deste ano. A queda de vendas prevista para o setor agora é de 4,3%, em vez de 5%.

Ninguém duvida, porém, que empresários e consumidores enfrentarão mais um ano difícil. Na melhor das hipóteses, o varejo brasileiro viverá mais do mesmo do ano passado. A queda nas vendas não deve se ampliar, o que é bom sinal, mas também não crescerão.

Diante deste cenário, o que as empresas terão de fazer para sobreviver em mais um ano de recessão? Quais setores devem sofrer mais ou menos em 2017?

O Diário do Comércio ouviu especialistas em varejo e em finanças sobre isso. Veja o que eles dizem.

Adriano Gomes, consultor financeiro:

“Além de buscar informações precisas sobre fluxo de caixa e pessoal, ter conhecimento da venda por metro quadrado pode fazer toda a diferença para qualquer rede.

Essa informação revela o fluxo de clientes por loja e pode determinar, por exemplo, a necessidade de troca de vitrine e de reposição de peças.

Se uma loja de uma mesma rede alcança venda por metro quadrado maior do que outra isso indica que há ociosidade de espaço. Pode ser uma boa hora de mudar de ponto de venda ou renegociar contratos de locação.

Revisão e qualificação de mão-de-obra podem resultar em corte de custos e melhoria de vendas. Muitas vezes um supervisor pode acumular a função, por exemplo, daquela pessoa que vai sempre em todas as lojas para avaliar desempenho.

Quando uma rede faz um movimento e eleva as vendas, deve conferir se a concorrência também obteve o mesmo desempenho. Se todas as empresas do setor aumentaram a vendas, significa que as ações não surtiram efeito.

Os indicadores de vendas e de desempenho da mão-de-obra precisam ser acompanhados semanalmente, em vez de uma vez por ano, como as empresas estão habituadas a fazer.

Quanto maior o número de indicadores de uma empresa, melhor será a seu desemprenho, mesmo em momentos de crise, pois ela terá dados precisos para tomadas de decisões.

Nelson Barrizzelli, economista e consultor de varejo

“As lojas que comercializam eletroeletrônicos, carros e móveis, itens que dependem de financiamento, tendem a ter uma recuperação bem mais lenta, considerando que a economia já chegou ao fundo do poço e a retomada será lenta.

O varejo de roupas, calçados e acessórios deve reagir mais rapidamente, assim como o de produtos de largo consumo, como alimentos e produtos de higiene e beleza.

Independentemente do setor em que atua, o que vai determinar a saúde financeira de uma empresa neste ano é como ela estava quando a crise começou.

As companhias organizadas, com uma boa gestão, sem dívidas, sairão largamente com vantagens sobre aquelas que esperaram o mercado reagir para tomar providências internas, como corte de custos, reavaliação de produtos e até de modelo de negócio.

As que diminuíram de tamanho para se adaptar a um novo patamar de consumo também podem sair mais fortalecidas. E não são poucas as redes que estão fazendo ajustes.

A Walmart, uma das maiores empresas do setor de hiper e supermercados do país, fechou mais de 60 lojas no Brasil. Grandes redes do setor de vestuário, como Marisa e C&A, também fecharam, juntas, dezenas de lojas em dois anos.

A Colombo, especializada em roupas masculinas, que chegou a ter 434 lojas no país no início de 2015, agora possui 305. A rede que teve de entrar com pedido de recuperação extrajudicial para sanar as finanças.

Ainda no setor de confecções tiveram de recorrer à Justiça para ganhar fôlego financeiro a Barred´s, com dívidas de R$ 100 milhões, o grupo GEP, dono das marcas Luigi Bertolli e Cori, de R$ 513 milhõe e a Handbook, com débitos de R$ 62,6 milhões.

No setor de brinquedos, a BMart, com dívidas de R$ 118,3 milhões, também não resistiu à recessão e também entrou com pedido de recuperação judicial”.

“O varejo vai ter de se ajustar diminuindo de tamanho e crescendo menos. A expansão que vinha ocorrendo com os shoppings e com as grandes redes será mais limitada.

Há muitas variáveis envolvidas, como emprego, renda, inflação, crédito, e fica difícil fazer projeções. Tudo isso pode melhorar em relação aos últimos dois anos, como também pode piorar.

Pode ser que haja empate nas vendas do comércio a partir do terceiro trimestre em relação a igual período do ano passado por conta da base de comparação e dezembro já seja para o setor um pouco melhor do que foi dezembro de 2016.

Agora a recuperação, se houver, será lenta por conta da perda de renda e do desemprego”.

Nelson  Kheirallah, coordenador do Conselho de Varejo da ACSP

“A recuperação do varejo deve começar a dar sinais partir de outubro. Até lá muitos estabelecimentos comerciais ainda deverão fechar as portas neste ano.

Em janeiro, vários indicadores mostram que o setor foi pior do que em janeiro do ano passado. E este mês também não começou bem.

Para enfrentar essa situação, o lojista vai ter de continuar fazendo sacrifícios, cortar despesas, ser criativo, trabalhar 24 horas por dia, se for preciso, treinar funcionários. Tudo para conseguir chegar até o Natal.

Os setores que vão mais sofrer são aqueles que não estão ligados a gêneros de primeira necessidade. O consumidor vai cortar ainda mais lazer, viagens, vai adiar troca de carro, não vai comprar roupa nova.

Os setores que dependem de crédito devem sofrer mais. A redução da taxa básica de juros da economia, a Selic, pode até ajudar um pouco este segmento, mas não será algo imediato.

As vendas de material de construção melhoram um pouco neste início de ano. Se esse setor reagir, poderá gerar uma melhora na cadeia toda, aumentando emprego e renda.

O país vai precisar de quatro ou cinco anos, porém, para recuperar a massa salarial e os investimentos que precisam ser feitos para girar a economia e gerar empregos”.

Eduardo Terra, consultor de varejo

“Num cenário otimista, o país se recupera em cinco anos. E isso acontece se a economia estiver baseada em investimento, não somente em consumo, se o país fizer as reformas com seriedade e tiver boa gestão das contas públicas.

O país precisa ainda de uma agenda para ganhos de escala e de produtividade nas empresas. Agora, o brasileiro está mais racional e olhando mais para atributos dos produtos, preços, financiamento.

O desempenho do varejo neste ano deve ficar igual ao do ano passado, crescendo menos que o PIB (Produto Interno Bruto), que deve ficar entre 0,5% e 1% em 2017″.

Fonte: Diário do Comércio

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