A inflação de 2017 fechou em 2,95%, confirmando a previsão de que seria inferior ao piso da meta, que é de 3%.

O número, anunciado na manhã desta quarta-feira (10/01), corresponde ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é apurado pelo IBGE. Trata-se do índice oficial da inflação no país.

É a inflação mais baixa desde a registrada em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o IPCA ficou em 1,65. No ano passado, a inflação oficial foi de 6,29%.

Os 2,95% se justificam sobretudo pela deflação inédita no setor de alimentos, possibilitada por uma safra agrícola de tamanho desproporcional.

O fechamento do número final de 2017 foi possível pela apuração da inflação de dezembro, que ficou em 0,44%. Ela foi superior à do mês anterior – 0,28% -, o que levou ao engano da maior parte das previsões do mercado, que esperava para o ano passado uma taxa ligeiramente inferior a 2,8%.

Paradoxalmente, inflação baixa não tem se traduzido pelo aumento da popularidade do presidente Michel Temer.

Isso contradiz uma tendência histórica, pela qual preços mais elevados prejudicam a avaliação de um presidente e, no sentido inverso, preços menos elevados a favorecem. No final da tarde, Temer qualificou a inflação baixa como “um fato extraordinário”.

Em janeiro de 2016, quando Dilma Rousseff ainda era presidente da República, o IPCA anual estava em 10,67. A inflação tem uma meta de no máximo 4,5% e no mínimo de 3%. O regime de metas foi estabelecido em 1999.

O curioso é que o Banco Central deverá desta vez se explicar pelo não cumprimento da meta inferior. Ele argumentará que o episódio ocorreu em razão da safra agrícola e da queda do preço dos alimentos no domicílio.

O peso dos alimentos no orçamento das famílias é bem maior que o de outros itens, que registraram altas bem maiores, como a gasolina e o óleo diesel, a mensalidade nas escolas particulares e os planos de saúde.

Uma das maiores vantagens de uma inflação baixa está no fato de afastar o fantasma da indexação, oficializada antes do Plano Real (1994), e que provocava um círculo vicioso: parte da inflação era gerada pelo reajuste preventivo de preços em todos os setores da economia.

O PARADOXO DE MICHEL TEMER

Mas voltemos ao paradoxo político. Michel Temer, com a aprovação de seu governo em apenas 6%, segundo o último Datafolha, não incorpora a sua imagem informações positivas geradas pelas reformas votadas no Congresso, por iniciativa do Executivo, ou pelos sucessos de indicadores como a queda nas taxas de juros e melhora ainda modesta no desemprego.

Da mesma maneira, é previsível que a divulgação de uma inflação excepcionalmente baixa não beneficie a imagem do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que é também pré-candidato à sucessão de Temer, no primeiro turno presidencial marcado para o próximo dia 7 de outubro.

Meirelles coordena uma equipe econômica que é considerada exemplar, por sua capacidade e desempenho, por amplos setores da indústria, comércio, serviços e agroindústria.

Para a população como um todo, da mesma maneira que passou a existir em meados de 2017 um descolamento entre a política e a economia, cresceu a percepção de que os feitos da equipe econômica se justificavam por um certo automatismo, sem vínculos com diretrizes gerais de cuja elaboração o próprio Temer é um agente ativo.

O Planalto entra em evidência por fatores negativos, como o suposto envolvimento do presidente da República na propina distribuída pela JBS ou na corrupção que já levou à prisão de três ex-ministros.

A própria habilidade política de Temer é colocada em dúvida, depois de trapalhadas como as que envolveram a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), indicada para o Ministério do Trabalho e cuja posse foi suspensa, nesta terça-feira (09/01), por decisão judicial.

A deputada tem um prontuário no mínimo esquisito, com duas condenações pela Justiça do Trabalho e o fato de aparentemente obrigar que uma de suas assessoras, em Brasília, pague as multas geradas por uma dessas ações penais.

Mas ela é filha do ex-deputado Roberto Jeferson, presidente nacional do PTB, partido que tem 20 deputados na Câmara e que fechou questão em favor do projeto de Reforma da Previdência, que o Planalto acredita poder votar em 19 de fevereiro.

Em outras palavras, Temer fecha os olhos a questões moralmente controvertidas, em nome de um objetivo maior, que é o futuro equilíbrio das contas públicas, por meio da correção das imensas distorções existentes no sistema previdenciário.

Esse comportamento não aumentará as taxas de aprovação do presidente. A tendência, ao contrário, é vê-lo apenas como um estímulo ao fisiologismo e aos hábitos políticos de pior reputação na história republicana.

Fonte: Diário do Comércio

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